Tem uma coisa que quase ninguém conta quando fala da história do acordeon: o instrumento que o rock supostamente matou nos anos 60 é o mesmo que, por vias tortas, deu ao rock um dos seus timbres mais reconhecíveis.
A sigla está escondida na frente de milhares de teclados espalhados pelo mundo. FAR-FI-SA. FAbbriche Riunite di FISArmoniche — Fábricas Reunidas de Acordeons. Aquele órgão barulhento e nasalado que empurra "Wooly Bully", que sustenta metade do primeiro disco do Pink Floyd, que Elton John usou em "Crocodile Rock" e depois xingou em entrevista, nasceu de bancadas onde se colava couro em palheta e se ajustava fole a mão, em duas cidadezinhas das Marche.
Vale a pena contar direito, porque a história é melhor do que a curiosidade.
Vista da coleção permanente do museu do acordeon de Castelfidardo, com instrumentos do fim do século XIX em exposição. Foto: autoria desconhecida
Um filho de pastor que andava 48 km por dia
Silvio Scandalli era de Camerano, filho de pastor e lavrador. No começo do século XX ele fazia, a pé, o trajeto de ida e volta entre Camerano e Castelfidardo — algo perto de 48 quilômetros por dia — para trabalhar nas fábricas de Paolo Soprani, o homem creditado como fundador da primeira fábrica italiana de acordeons, em 1863.
Scandalli absorveu tudo. Voltou para casa e começou a montar instrumentos na própria residência. Com o irmão Enrico, abriu a Scandalli Brothers, uma oficina que cresceu até empregar entre 400 e 700 pessoas. O efeito colateral foi um pequeno boom industrial: marcenarias, fundições, fábricas de moldes plásticos e metálicos brotaram em volta para atender à demanda. Um ecossistema inteiro se formou ao redor de um instrumento de fole.
Guarde essa informação. Ela explica tudo o que vem depois.
6 de junho de 1946: quando três viraram uma
A guerra machucou o setor. Para sobreviver, três casas se juntaram em 6 de junho de 1946: Paolo Settimio Soprani, de Castelfidardo; F.lli Scandalli, de Camerano; e Frontalini, de Numana. O nome oficial da nova empresa era Fabbriche Riunite Fisarmoniche Italiane S.p.A. Na prática, todo mundo passou a chamar de Farfisa.
Frontalini saiu cedo — não concordava com o rumo da gestão. Os outros dois ficaram, e o resultado foi assombroso.
180 acordeons por dia
No auge, a Farfisa virou a maior fornecedora de acordeons do planeta: até 180 instrumentos por dia e mais de 1.600 funcionários, distribuídos em três fábricas. Em 1948 a empresa já publicava uma revista mensal dedicada ao acordeon e organizava concursos nacionais e internacionais. Não era só fabricar: era construir a cultura em volta do produto.
Foi nesse ambiente que nasceu, no fim dos anos 1940, o projeto do Scandalli Super VI — modelo que ainda hoje muito acordeonista considera o topo absoluto do que a Itália já produziu.
Scandalli Super VI (2004). Foto: JB Acordeões, 2026
Gervasio Marcosignori, o homem que testava tudo
Se a Farfisa tem um personagem central, é ele.
Gervasio Marcosignori nasceu em Castelfidardo em 3 de dezembro de 1927. Menino prodígio: aos 7 anos, em 1934, tocou em Roma na Mostra del Risorgimento. Entrou na Farfisa em 1947 como artista exclusivo de demonstração e gravação — e rapidamente virou diretor de desenvolvimento de instrumentos, tanto de acordeons quanto de órgãos. Seu primeiro trabalho técnico foi justamente no Super VI de Silvio Scandalli. Em 1959 recebeu o "Oscar Mundial do Acordeon". Ficou conhecido na Itália como il poeta della fisarmonica.
Repare no detalhe que muda a história: o cara que decidia como os produtos eletrônicos da Farfisa deveriam soar era um acordeonista de concerto. Não um engenheiro de áudio. Um músico com ouvido formado em palheta italiana.
1963: o ano em que o chão sumiu
Aí veio a guitarra elétrica.
Os números são brutais. Antes da guitarra, Castelfidardo vendia cerca de 200 mil acordeons por ano. Entre 1960 e 1963, dezessete fábricas de acordeon fecharam as portas na cidade. Em 1964, as vendas de guitarra passaram de um milhão de unidades — e as de acordeon despencaram para 50 mil.
Uma cidade inteira, com três gerações de conhecimento acumulado em palheta, couro, fole e mecânica de teclado, ficou olhando para um mercado que tinha evaporado.
O que aconteceu em seguida é a parte que me fascina.
Do fole ao transistor
A Farfisa não fechou. Ela olhou para o que sabia fazer — som e caixas de madeira — e foi atrás do que estava vendendo.
1958 – Microrgan. Um órgão de palhetas portátil. Em vez do fole, um ventilador elétrico soprava ar sobre as palhetas. Tecnologicamente, é um acordeon que trocou o braço do músico por um motor.
1960 – Cordovox. Parceria com a americana Lowrey Organ Co. Marcosignori foi mandado para Chicago para trabalhar com os engenheiros deles. O resultado, os modelos CG-2 e CG-3, era um híbrido honesto: palhetas de acordeon de verdade, com fole de verdade, somadas a geradores eletrônicos de tom e amplificador valvulado.
1962 – Transicord. O primeiro acordeon transistorizado do mundo, modelo TD/50. Aqui a Farfisa cortou o cordão: não há uma única palheta dentro dele. É puramente eletrônico, num corpo em formato de acordeon, ligado por cabo multipino ao amplificador.
1964: o Combo Compact
Quando a Vox lançou o Continental em 1962, a Farfisa percebeu que já tinha, por acidente, toda a tecnologia necessária. Em 1964 saiu o Combo Compact.
Por dentro: doze placas geradoras de tom, uma para cada nota da escala cromática, com divisores de frequência produzindo as demais oitavas. Transistores de germânio. E — apesar do "transistorizado" estampado na propaganda — um circuito valvulado de alta tensão para o reverb de mola.
O preço fez o resto. Um Mini Compact custava US$ 495 em 1966; o Vox Continental saía por US$ 995 no ano anterior. Mão de obra italiana barata contra mão de obra inglesa e americana. Qualquer banda de garagem conseguia comprar um.
Por que o Farfisa soa "nasalado"? A herança da palheta
Essa é a pergunta técnica que ninguém faz, e a resposta é bonita.
Uma palheta livre de acordeon não produz uma onda suave. Ela vibra sobre a fenda da placa e pica o fluxo de ar em pulsos, gerando um espectro denso, cheio de harmônicos, com aquele caráter meio áspero que a gente reconhece de longe. É exatamente por isso que acordeon corta orquestra.
Os circuitos divisores de frequência do Compact produzem formas de onda próximas da onda quadrada — também densas em harmônicos, também "encorpadas" e agressivas. Ou seja: o ponto de partida elétrico já era parecido com o ponto de partida acústico.
O que os engenheiros da Farfisa fizeram foi filtrar esse sinal com o mesmo critério com que se define a voz de um acordeon. Olhe a nomenclatura dos registros do Compact: 16', 8', 4', 2 2/3'. É a mesma lógica de pés do órgão que o acordeon já tinha adotado nos seus registros — fagote em 16', clarinete em 8', flautim em 4'. Os nomes das vozes também: flauta, oboé, trompete, cordas.
Não é coincidência de vocabulário. É gente com ouvido de afinador de palheta decidindo, no filtro, o que é "oboé".
Tem até um detalhe encantador de engenharia: o pedal de expressão do Compact não usa potenciômetro, e sim um fotorresistor — uma lâmpada e um sensor de luz. E as pernas do instrumento dobram e guardam dentro da própria base. Quem passou a vida projetando estojo de acordeon pensa assim.
Foto: Powerhouse Museum Collection, Sydney — objeto 613168, "Farfisa Combo Compact organ", 1964
O primo distante: a Eko de Oliviero Pigini
A Farfisa não foi o único desvio. Em Castelfidardo, Oliviero Pigini — sim, da família Pigini, do acordeon — leu o mercado do mesmo jeito e chegou a outra conclusão: se o mundo quer guitarra, façamos guitarra.
Em 1956 ele fundou a Giemmei, importando e revendendo violões. Em 1959 desenhou os primeiros protótipos próprios e criou a Eko. Em 1960, ocupou uma antiga fábrica de acordeons e começou a produção, apoiado pela CRB Elettronica, que já fabricava captadores sob encomenda dele desde 1958. Entre 1964 e os anos 1970, a Eko foi a maior fabricante de instrumentos musicais da Europa.
Aquelas guitarras Eko cobertas de plástico glitter que hoje colecionador disputa em leilão? Saíram de galpões e de mãos que até ontem montavam acordeon.
O que sobrou
O epílogo tem gosto agridoce. Em 1968 o conglomerado americano Lear Siegler assumiu o controle acionário da Farfisa. Vieram a linha FAST (Farfisa All Silicon Transistor, 1967), a série Professional, a VIP de 1970 com pedal de pitch bend, e até sintetizadores como o Syntorchestra de 1975. Mas o Hammond dominou o rock, os japoneses dominaram o preço, a família Scandalli saiu, e o último órgão combo Farfisa saiu de linha em 1982.
A marca sobreviveu de um jeito que ninguém previu: hoje a ACI Farfisa, em Osimo, fabrica interfones e videoporteiros. Os direitos sobre os teclados Farfisa ficaram com o grupo Bontempi.
E os instrumentos? Um dos primeiros a colocar o Combo Compact no centro do palco foi Domingo "Sam the Sham" Samudio, em "Wooly Bully" (1965). Em 1967 o Farfisa era a voz principal de "Incense and Peppermints", do Strawberry Alarm Clock. Richard Wright construiu o som do Pink Floyd de The Piper at the Gates of Dawn (1967) até Ummagumma (1969) em cima de um Farfisa, e ainda usou um em The Dark Side of the Moon. Sly Stone tocou um Professional em Woodstock. Philip Glass gravou parte da sua obra inicial, incluindo Einstein on the Beach, num Mini Compact — e ainda tem o instrumento. Steve Reich escreveu Four Organs para quatro Farfisas.
Dois mitos para derrubar de passagem
Muita gente jura que Ray Manzarek, do The Doors, tocava Farfisa. Ele usava um Gibson G-101 — que, ironia das ironias, era uma cópia do projeto Farfisa.
E o caso mais divertido: o riff de "96 Tears", do ? and the Mysterians, é citado em todo lugar como o momento definidor do Farfisa. Só que ninguém sabe direito. Há relatos de Vox Continental, de um órgão doméstico Thomas emprestado às pressas no estúdio, de um Lowrey — e o próprio tecladista, Frank Rodríguez, já afirmou em entrevista que gravou num Hammond A1 sem Leslie. Ao vivo a banda alternava entre Vox e Farfisa, o que provavelmente explica a confusão. Se alguém te contar com certeza absoluta qual órgão está naquela gravação, desconfie.
Retrato de Gervasio Marcosignori com seu acordeon, em foto de arquivo. Foto: Arquivo oficial Gervasio Marcosignori
O acordeon nunca perdeu
Volto ao começo. A narrativa fácil diz que a guitarra elétrica matou o acordeon nos anos 60. A narrativa verdadeira é mais interessante: o acordeon foi o organismo que se adaptou, e boa parte da eletrônica musical italiana do século XX cresceu dentro dessas fábricas.
Cada vez que você ouve aquele órgão fininho e insistente numa gravação de garage rock, está ouvindo, de terceira mão, o ouvido de um acordeonista de Castelfidardo decidindo como o timbre deveria ser.
E aí vem a parte que mais me interessa saber de você: na sua opinião, o acordeon eletrônico e digital de hoje é continuação natural dessa linhagem — ou o instrumento perde alguma coisa quando o fole deixa de mover ar de verdade? Conta aqui nos comentários, porque essa discussão a gente nunca resolve.
Fontes consultadas
Museo Internazionale della Fisarmonica — Castelfidardo (histórico e coleção do museu)
Farfisa — Wikipedia (EN) (cronologia de modelos, dados técnicos, usuários; baseada em Lenhoff & Robertson, Classic Keys, UNT Press, 2019, e Vail & Carson, Vintage Synthesizers, 2000)
SIUSA — Farfisa. Fabbriche riunite fisarmoniche italiane spa di Camerano (Ministero della Cultura — ficha do fundo arquivístico)
The Institute for Education in International Media — "The industrious Fisarmonica" (Silvio Scandalli, fusão de 1946, dados de produção)
NPR — "Italy's Accordion Industry: Tiny And Thriving" (2012) (números da crise e da produção atual)
Combo Organ Heaven — Farfisa (detalhes técnicos dos modelos)
Songfacts — "96 Tears" e Reverb — A History of the Vox Continental (relatos conflitantes sobre o órgão da gravação)
Google Arts & Culture / Unioncamere — "The Accordions of Castelfidardo"